sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Lipedema&Eu

 

 

“Lipedema&Eu”, é o nome da página que criei, mas podia ser o nome do filme da minha vida. 

Desde cedo que o Lipedema existe em mim e, apesar de não ser uma presença consentida, sinto que (quase) todas as decisões importantes que tomei, foram influenciadas pela sua presença. Ainda que não conhecesse o seu nome, sentia, todos os dias, o peso de quem carrega uma doença que nos muda de dentro para fora e de fora para dentro. Primeiro, o corpo que muda de forma incompreensível e inaceitável, para quem, como eu, estava na adolescência, onde a imagem dum corpo feminino adulto é idealizada e, progressivamente, confrontada com uma realidade distante da que via ao espelho e nas outras meninas da minha idade. O meu corpo transformou-se, acentuando cada vez mais, a diferença entre o tamanho das minhas pernas e o resto do meu corpo. 

Nesta altura onde a única constante é a mudança e onde a autonomia ganha nos dá mais poder e responsabilidade, é inerente fazermos escolhas que nos permitam alcançar os nossos objetivos. Fiz as escolhas óbvias – mais exercício, dieta, roupas mais largas – mas estas escolhas nunca trouxeram resultados, mas trouxeram culpa, incompreensão e vergonha. Ciclos de tentativa e erro, onde nunca se acerta, porque o Lipedema não se trata com remédios, nem com dietas restritivas, nem com horas infinitas de Cardio. Com a progressão da doença, reativa às mudanças inerentes às várias fases da vida duma mulher – menarca, anticoncepcionais, maternidade, envelhecimento – as dores foram-se instalando, limitando atividades banais, a desproporção foi-se acentuando e, aquele corpo que devia ser “casa”, deixou de ser “meu”. 

Durante muitos anos, vivi com sensação de não viver no meu verdadeiro corpo, o corpo que tinha interiorizado não era aquele, era o corpo duma pessoa que tem um estilo de vida saudável, que faz exercício, que faz o que fazem as pessoas que têm corpos normais. Senti-me muitas vezes cansada, desanimada, incompreendida e culpada, embora não soubesse o que poderia estar a fazer errado. Todos os médicos que procurei, de várias especialidades, me diziam que “tinha má circulação, excesso de gordura nas pernas, mas não tinha peso a mais, que era o meu biótipo”. 

Não! Eu não era uma mulher com curvas, eu era doente e, embora não o soubesse, nem soubesse como se chamava esta doença, eu sabia que alguma coisa estava errada. Nestes anos, principalmente nos primeiros anos, perdi muito mais de que o corpo proporcional, perdi confiança, autoestima, limitei me nos contactos e nas atividades que implicavam algum nível de exposição. Sinto que todas as escolhas que fiz, nessa altura, tinham sempre um filtro – Lipedema – ainda que eu não lhe desse um nome. 

Muitas vezes pensei: “Se não tivesse estas dores, eu podia….”; “Se não tivesse este peso, este cansaço, eu podia….”; “Se não tivesse que mostrar as pernas, eu podia….”. 

Aos 45, após mais uma crise inflamatória, sem solução nem compreensão clínica, encontrei, na pesquisa que nunca desisti de fazer, a resposta a todas as perguntas que já tinha feito, num título dum artigo – “magra com pernas gordas? Você deve ter lipedema”. Reconheci-me de imediato e nesse dia ganhei asas, ganhei controle, independência e a leveza que nunca tinha sentido. Ainda sem saber, nesse dia, abri a porta para o resto da minha (qualidade de) vida. 

Na altura, encontrei o dr. Olivas Menayo, tive o diagnóstico e iniciei o tratamento conservador e, posteriormente, fiz a cirurgia que me trouxe a “casa”. Lembro-me que o pós-operatório foi mais leve que as dores que sentia na minha rotina diária e lembro-me de ser uma surpresa que se podia viver sem dores. 

Neste processo, senti, sobretudo, que ganhei poder e controle sobre o meu corpo, que agora não preciso de pensar se posso, só preciso de pensar se quero; agora sei o que fazer, como tratar e o que esperar quando faço – ou não – o que é preciso. Agora, eu tenho Lipedema, mas ele não me tem a mim

Nesta jornada, ganhei uma nova dimensão de mim e de autocuidado, ganhei conhecimento, ganhei pessoas e ganhei um novo propósito: acolher e acompanhar quem ainda está noutra fase desta jornada. 

O Lipedema é uma doença física, que nos limita e afeta sistemicamente — mas os seus impactos não se restringem apenas ao corpo. Instala-se de forma insidiosa, alterando a nossa relação com a imagem corporal, a autoestima e até a forma como nos posicionamos no mundo. Rouba-nos os pensamentos, mina a autoconfiança, distorce a forma como nos vemos, como nos gostamos, como nos damos aos outros. 

Por tudo isto, é essencial que o tratamento do lipedema vá além das abordagens médicas e fisioterapêuticas, e inclua de forma integrada e prioritária o acompanhamento psicológico. Viver com lipedema implica, muitas vezes, enfrentar sentimentos de frustração, vergonha e isolamento. Este desgaste emocional prolongado contribui para quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima. 

A minha experiência pessoal e o facto de ser psicóloga, impulsionou o início duma parceria com o Instituto Português de Lipedema, dirigido pelo Prof. Dr. Olivas Menayo, para a inclusão da consulta de psicologia e bem-estar, no tratamento das pacientes com Lipedema. O acompanhamento psicológico oferece um espaço seguro onde estas vivências podem ser reconhecidas, compreendidas e ressignificadas. Ajuda a reconstruir a relação com o corpo, a promover a aceitação e a desenvolver estratégias de gestão emocional saudáveis. Além disso, fortalece a capacidade de adesão ao tratamento, uma vez que aspetos emocionais mal geridos podem comprometer a motivação e a consistência necessárias para lidar com as exigências da reabilitação física. Mais do que um complemento, a dimensão psicológica deve ser tratada como um pilar central no cuidado do lipedema. Porque cuidar da mente é, também, cuidar do corpo. E só com um olhar verdadeiramente integrativo conseguiremos promover, não apenas a saúde física, mas também o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas que vivem com esta condição, porque o Lipedema é para sempre. É um caminho que exige força, resiliência e consciência de que somos muito mais do que a doença que enfrentamos. Tendo como lema – “O Lipedema é o meu desafio, não o meu limite”.

Cláudia Vicente

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

É PRECISO CHORAR


Chorar!

A primeira forma de comunicar, a mais intensa, a mais verdadeira. Aquela que usamos quando as palavras, os gestos e as orações não chegam.

Chorar! 

A água que nos tira de dentro tudo o que não nos serve, tudo o que nos cala. Cada lágrima encerra em si, todas as palavras que nela cabem, mas que não existem em língua alguma. 

Chorar é a forma mais inocente e pura de expressão!

Chorar é tanto e é tão simples. É cura, alívio, emoção, sentimento.

É a expressão que nos faz humanos.

Porque tentamos anulá-la, escondê-la, disfarcá-la. Porque nos privamos de sentir, expressar, partilhar?

Mas não é só o nosso choro que não suportamos, é também o choro alheio. Não somos educados para dar espaço a todas as emoções, somos treinados para "controlar", o que sentimos, como o expressamos, com quem e onde o fazemos e por quanto tempo.

Passamos a infância a ouvir que "Não é preciso chorar", "já passou"; e à medida que vamos crescendo, que  "Não é caso para chorar", "Já somos crescidos". Vendem-nos, desde cedo, a ideia que chorar nos torna fracos, incapazes, inadequados, infantis. Privam-nos da mais pura e profunda forma de expressão das nossas emoções mais intensas, daquelas que não se soltam em palavras, textos ou silêncios. Fazem-nos acreditar que a essência deve ser silenciada em prol do julgamento alheio. E julgamos também, a nós e aos outros - "fracos, inadequados, demasiado sensíveis (isso existe?), vulneráveis, infantis"

De geração em geração, vamos castrando as nossas crianças, impondo-lhes a obrigação de calar o choro, de calar a expressão que lhes permite porem do lado de fora aquilo que lhes passa por dentro. E vamos semeando vergonha, limite para o sentir, barreiras à expressão do que sentimos. 

Será, então, que devemos sentir apenas até onde as palavras podem descrever? Será que nos devemos privar de viver por inteiro, de sentir tudo? Será que é justo usufruirmos de apenas metade da experiência, quando nascemos com o potencial para viver e saborear a experiência completa.

Não estaremos a privar-nos de Ser por inteiro, de deixar Ser por inteiro?

Chorar trás verdade, trás essência, trás honestidade, trás simplicidade.

Chorar é Cura, Força e Coragem.

Bem-hajam os que choram, os que não se apagaram, os que resistem a SER e a ESTAR em verdade, vivendo as suas emoções, usufruindo da experiência completa, intensa, como a vida deve ser.

Que saibamos acolher as nossas lágrimas, com empatia, amor, gratidão e sabedoria.

E quando alguém partilhar connosco as suas lágrimas, que o nosso primeiro pensamento seja: "se está a chorar, é porque é preciso chorar." 

Que um dia possamos encontrar em todas as lágrimas, força, coragem e não-julgamento; e possamos devolver empatia, cuidado e gratidão.

É PRECISO CHORAR!