5 de junho de 2018
Hoje o dia nasceu como outro dia qualquer...
Cumprimos a rotina matinal, como sempre, a correr em pezinhos de lã e a dar ralhetes e gargalhadas, à vez, num sussurro para não acordarmos os que ainda dormem.
Hoje correu muito bem, saimos antes da hora, com tempo para a ouvir a tua musica* (mais uma vez), para falarmos sobre os cromos mais dificeis da coleção do futebol e para falarmos das coisas que já não te lembras.
Hoje quiseste lembrar como eras em bebé...
Andamos às voltas nas memórias dos banhos, dos dias passados em casa, dos mimos da mana, de teres sido um bebé grande...as perguntas fluiam, como as histórias e os risos...
-Mamã, eu era magro, quando nasci e era bebé?
No meio duma gargalhada disse-te que eras um bebé enorme e gordo e forte e....
A tua voz interrompeu-me, tão assertivo e calmo, como que num anuncio inevitável...
-Mumy, sabes que eu sou o único da minha escola que não tem umbigo?
Não consegui evitar o silêncio. Senti como se mil flexas tivessem sido lançadas e num só golpe me tivessem atingido.
Desde que nasceste que eu sabia que este dia ia chegar! É hoje e sinto que não estou preparada. Tenho que responder....continuava com a pergunta na cabeça....angústia!
Coloquei a voz, forçada e conscientemente, o mais normal que consegui e fiz das tripas coração para responder de forma básica, curta, tão normal como temos lidado com esta tua característica (ou não temos lidado, porque para nós, sem umbigo, é o normal em ti) e disse apenas
- Ah, pois! Por causa da tua operação, não é?! Olha, mas sabes que o umbigo também é uma marca com que os bebés ficam! São duas marcas diferentes.
- Porque é que eu tenho esta? - pergunta ingénua, desprovida de mágoas ou tristeza, apenas movida a curiosidade de quem pergunta para saber, como se nunca tivesse ouvido a explicação - senti que pela primeira vez quiseste saber...
E eu expliquei-te (mais uma vez, para mim, talvez a primeira, para ti) que quando nasceste tinhas um doi-doi e foi preciso operar para ficar curado e por isso tens essa marca e não a marca do umbigo.
Sorriste com o teu sorriso sereno e a tua expressão calma transpirou entendimento, mas vontade de também ter um (umbigo).
Felizmente, já tinhamos chegado à escola! Rematei, prontamente, que quando crescesses podias fazer um e que depois te explicava melhor, quando quisesses saber.
Mudaste de assunto, pegaste na bola e fomos para a escola!
Voltamos aos cromos, às táticas do teu jogo e aos super-heróis.
Deixei-te na escola depois de um abraço, um beijo e um "porta-te bem", como sempre fazemos todos os outros dias. Mas para mim, este, não foi um dia qualquer, foi O dia em que o PORQUÊ? ganhou forma.
Cheguei ao carro e chorei, chorei tudo o que tive vontade de te dizer
- para não te sentires inferior;
- que és um gerreiro, um vencedor;
- que nada em ti depende do teu umbigo, tu és assim e tu és incrivel;
chorei de medo que seja preciso dizer-te isto um dia, chorei as perguntas que não te fiz
- como sabes que és o único? Quem é que disse isso? Gozaram contigo? Sentes-te mal com isso? Porque falaste nisso agora?
Chorei a angústia de que possas sofrer com isto, chorei o medo que sofras (mais).
Chorei a vontade que tive de voltar para casa, abraçar -te e ficarmos assim o dia todo! Foi difícil, muito difícil calar a vontade, o instinto de te proteger de um problema que se calhar para ti nem existe!
Senti que te dei o que precisavas para hoje! Senti-me uma mãe que esteve à altura, ainda que a tremer por dentro!
Tu és um ser único, especial, mas isso não é porque não tens umbigo, o cabelo castanho ou dois olhos que falam. Dentro de ti há um mundo onde habitam coisas boas, há uma vida cheia vida, desprovida de angústias, fantasmas ou monstros; onde os problemas duram um momento e as gargalhadas só dão tréguas quando já doi a barriga. Tu és (per)feito para mim! E fazes-me tão feliz assim!
Este és tu! Uma centelha de luz que eu tenho o privilégio de chamar filho.
*"Nos teus olhos"- álbum CASA de Carolina Deslandes
Dediquei-ta e agora não paras de a ouvir.
